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Voto, desinformação e poder: os desafios da democracia

14/10/2026


Mauricio Orth


Quase 40 milhões de brasileiros não compareceram às urnas ou votaram em branco ou nulo no primeiro turno. Em Cotia, foram mais de 52 mil registros nessas categorias. Como enfrentar a desinformação, a polarização e a concentração de poder?

No primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, 33,47 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. Outros 5,97 milhões votaram em branco ou nulo. Somados, são cerca de 39,4 milhões de registros, aproximadamente um quarto do eleitorado apto. Em Cotia, foram 52.783 registros nessas categorias: 44.070 não compareceram, 4.030 escolheram o voto em branco e 4.683 anularam o voto.

O contingente municipal é mais de oito vezes superior à diferença de 6.247 votos entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Cotia. No país, a diferença entre os dois foi de 2.224.965 votos. O número é expressivo, mas reúne situações diferentes. Há quem não tenha conseguido votar, quem esteja insatisfeito com os candidatos e quem não se identifique com nenhum dos projetos apresentados.

"Eu não queria votar em nenhum dos dois" é uma manifestação legítima.

A insatisfação é legítima e  também pode ser um ponto de partida para refletir sobre o que está em jogo e sobre como exercer a cidadania para além das urnas.

Pós-verdade: quando acreditar parece mais importante que saber

Embora a mentira na política seja antiga, o conceito de pós-verdade ganhou projeção internacional em 2016, quando foi escolhido como palavra do ano pelo Dicionário Oxford. A expressão descreve situações em que emoções e crenças pessoais pesam mais na opinião pública do que fatos verificáveis.

As redes sociais ampliam esse fenômeno. Notícias falsas, vídeos fora de contexto e imagens antigas apresentadas como atuais circulam rapidamente, muitas vezes impulsionados pela indignação.

Antes de compartilhar uma informação, vale perguntar: quem publicou? Qual é a fonte original? A data está correta? Outros veículos independentes confirmaram? Se não for possível verificar, o melhor é não apresentar o conteúdo como fato.

O Tribunal Superior Eleitoral mantém o serviço Fato ou Boato, que reúne verificações sobre conteúdos relacionados às eleições.

Agência Lupa:  Você pode acessar o site oficial para acompanhar as investigações, checagens de discursos e relatórios sobre conteúdos manipulados por inteligência artificial.

Fato ou Fake:  A página oficial do serviço fica hospedada no portal G1, onde a equipe do Grupo Globo desmente com rapidez as mensagens falsas que viralizam nas redes sociais.

Aos Fatos: O portal oficial da agência traz investigações profundas de campanhas de desinformação, análises de redes e gráficos explicativos

O extremismo precisa de inimigos

Em 1987, o comediante britânico John Cleese, integrante do Monty Python, participou de um esquete satírico sobre o extremismo político. Sua provocação continua atual: o extremismo oferece a ilusão de que toda a maldade está no adversário e toda a virtude, em nós mesmos.

Quando o outro passa a ser tratado como inimigo, a agressividade parece justificável e o diálogo perde espaço. A política precisa de divergência. Sem ela, não há debate real, fiscalização ou possibilidade de rever decisões.

O problema não está em defender posições firmes ou criticar duramente um governo, mas em abandonar os fatos e a convivência democrática para desqualificar quem pensa diferente.

Democracia precisa de pluralidade — e de alguém capaz de dizer "não"

A Constituição Federal estabelece o pluralismo político como fundamento da República e determina a independência e a harmonia entre Legislativo, Executivo e Judiciário.

Isso significa que a democracia não se resume à escolha de quem governa. Também depende de instituições capazes de fiscalizar decisões e conter abusos.

O Legislativo deve fiscalizar o Executivo; o Judiciário, assegurar o cumprimento das leis e da Constituição; os órgãos de controle, investigar irregularidades; e a imprensa e a sociedade civil, acompanhar e questionar o poder.

O filósofo francês Montesquieu já sintetizava essa preocupação em "O Espírito das Leis", de 1748:

“Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder.”

Quarenta anos depois, James Madison, um dos responsáveis pela Constituição dos Estados Unidos, aprofundou a questão em "O Federalista nº 51":

“Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. [...] Ao organizar um governo que deve ser administrado por homens sobre homens, a grande dificuldade reside nisto: primeiro, é preciso capacitar o governo a controlar os governados; e, em seguida, obrigá-lo a controlar a si mesmo.”

A ideia permanece atual: a democracia não depende apenas da vontade da maioria expressa nas urnas. Depende também do pluralismo, da proteção das minorias e de instituições capazes de fiscalizar os governantes e impedir a concentração excessiva de poder.

Uma democracia se fortalece quando a pluralidade de vozes encontra espaço para questionar o poder e instituições independentes têm força para limitar seus excessos.

E em Cotia? O custo de uma política pouco plural

A possibilidade de concentração de poder não é uma questão exclusiva de Brasília. Em Cotia, a influência histórica de grupos familiares na política municipal nos dá um panorama que merece reflexão.

Quem vive na cidade sente na pele problemas que atravessam diferentes administrações, da saúde à mobilidade, do saneamento ao planejamento urbano. Quanto desse atraso pode estar relacionado a uma governança pouco plural, com pouca renovação de prioridades e influência concentrada?

É legítimo questionar se a concentração de influência dificulta a renovação política, a fiscalização e a responsabilização de quem governa.

A resposta exige olhar para decisões, gastos públicos, resultados e transparência. O critério deve valer para todos, independentemente do partido ou sobrenome.

A cidadania não termina na urna

Não gostar de nenhum candidato não impede o eleitor de analisar propostas e consequências. Votar em alguém também não exige defender todas as suas decisões.

O voto branco ou nulo é uma opção individual, mas não conta como voto válido na disputa. Também não é verdade a “lenda” de que uma eleição é automaticamente anulada se a maioria votar em branco ou nulo.

A cidadania continua depois da eleição: na verificação de informações, na fiscalização dos representantes, no acompanhamento do orçamento e na participação nas decisões da cidade.

Não precisamos pensar igual para compartilhar a mesma democracia. Uma democracia se fortalece quando a pluralidade de vozes encontra espaço para questionar o poder.  E quando instituições independentes têm força para limitar seus excessos.

 


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