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Planeta Eu

27/10/2020

Você sabe perguntar?


Você sabe encontrar as perguntas dentro de você?

Eu não sabia. Não sentia que tinha o direito de fazer perguntas. Talvez imaginasse que fazer perguntas seria incomodar, colocar em xeque, desnudar. A ideia, entendi aqui e ali, é formular a pergunta primeiro internamente. Tem uma situação incômoda? Então, qual é a sua pergunta em pouquíssimas palavras? Não pode colocar junto da pergunta uma justificativa, nem um "mas". Só o cerne interessa. O que você realmente quer saber nesta situação?

 E – olha que bom – não precisa perguntar para a pessoa em questão. O importante é se permitir perguntar, é encontrar a essência, a pergunta que lateja dentro daquela situação incômoda. E sabe que a resposta não interessa? Claro que interessa, estou brincando, ela será um norte para você, mas te digo, eu não confiaria nessa resposta, nessa bússola.

Sabe por que? Meu amigo lotado de compromissos recebeu uma pergunta: "Você quer se comprometer comigo?" Apesar dele adorar a companhia da bela dama, disse "não!". Ele disse não pra sensação de mais um compromisso. Ela, com lágrimas nos olhos, pegou a cauda do vestido de noiva e saiu correndo pelo salão. Ele não entendeu nada, está tão cheio de compromissos que não está entendendo nada que não se pareça com um garfo e faca na hora do almoço, que come apressado, e ambos perderão a rica convivência por conta da resposta relacionada a um contexto interno que não estava visível (para ambos, possivelmente).  

Ou seja, de onde aquela pessoa está respondendo? Como ela está entendendo sua pergunta? E mesmo que ela diga sim, momentos depois esse sim pode virar não.  Por isso não importa tanto a resposta, embora ela, com certeza, abrirá um espaço dentro de quem pergunta: Saio correndo com o vestido de noiva? Mudo de cidade? Confirmo que ali não há espaço para crescer no trabalho, enquanto aquele for o chefe? Qual é a energia que a resposta me parece ter, que sentimentos se revelam dentro de mim?

Como diz a Katie Byron: "Ele disse. Quem acreditou?" Com o que ele disse posso tropeçar na escadaria com toda aquela cauda do vestido de noiva, posso comprar uma passagem para Dharmakot, ou talvez só me sentar na escadaria, deixar passar toda aquela revolução interna e quem sabe, quando eu olhar para o lado, ele estará ali sentado também, com dor no pé, pelo sapato bico fino apertado.

Katie Byron fala também que todos acreditamos que a censura é algo ruim, somos a favor da livre-expressão, só que quando alguém diz algo que não gostamos, brigamos por ela ter dito. Quando consigo legitimar a fala do outro, a resposta do outro, é tão libertador e respeitador. Como disse uma amiga: "Como posso querer que ele me queira, se ele não me quer? E não é por mim, é por ele. Ele que importa. Se gosto dele, quero que ele só queira o que quer!"

Tão difícil isso, né? Não se ofender quando o Outro diz que não nos quer. Traz à tona o terrível medo da rejeição. Imagino que seja muito natural sentir isso, deve estar na nossa programação básica: se quando bebês alguém não nos quisesse minimamente, morreríamos. Só que agora a gente já está grandinho. Eu estou grandinha, para falar sempre na primeira pessoa. Quando recebo um não, isso não precisa ter o nome de rejeição, posso simplesmente acolher (muitas vezes com uma tempestade interna que acaba passando). Não é uma situação real de perigo, não é um atestado de insuficiência, é só um não.

Com esse texto sendo escrito, saí com meu filho e ele ficou bravo com algo que fiz. Fiquei magoada e guiando o carro com ele ao lado, pensava: qual é a pergunta para sair dessa situação incômoda. Tentei várias ali em silêncio: "Você não viu que eu não tinha intenção de ter sido inconveniente?" Eu mesma respondi: "Claro que ele viu, mas isso não anula o que fiz. "Fui tentando e nenhuma pergunta mudava a situação. Terminei encontrando uma pergunta ainda carregada de emoção (que não fiz para ele): "Quando eu estiver morrendo você vai pedir desculpas por ter sido tão exigente comigo, com essa mãe que faz tanto por você?"

Ai, mães! Bem que o Roberto Freire dizia que somos mais perigosas que bomba atômica. Foi bom ter posto a prova o método de fazer perguntas internamente. A busca por elas me fez olhar a situação por vários ângulos e passada a emoção vi que foi só eu agindo de modo inconveniente sem querer, ele se expressando, eu me magoando e mostrando corporalmente que tinha ficado triste (isso é fácil de fazer, é só ficar olhando para o horizonte distante...), ele se culpando por ter sido sincero, eu tendo que aceitar que agi mal mesmo e que ele tinha o direito de se zangar, até que tudo se dissipou. Tudo em silêncio – é, não somos uma típica família italiana. A única coisa que disse quando ele quis se justificar por ter sido irritado e sincero foi: "Tá tudo certo, eu agi e você se expressou, não precisa ter culpa."

 Poderíamos ter falado mais? Acho que naquele momento intenso onde eu não estava gostando nada de ter sido desaprovada, não ajudaria falar. Outras famílias se organizam diferente: quebram os pratos e depois se abraçam. Tudo vale, né?

Ilustração de Adriana Hernandes Fernandes


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Jany

Escritora e Focalizadora de Dança Circular no UlaBiná.

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