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Planeta Eu

05/02/2015

O deserto e as pequenas mãos


Ontem estive no deserto, em Gajira, Colômbia. Ali não há água potável e a maioria das pessoas vive de modo miserável. Um carro 4X4 nos levava. O moço que guiava jogou pela janela uma garrafa grande de suco que partilhamos com ele. Parte do caminho é rodeada por cactos. No caminho, muitas crianças saiam correndo de suas casas precárias e estendiam suas mãos pedindo dinheiro. O motorista ia buzinando, avisando que não iria parar, para que elas não fossem atropeladas. Ele se deteve, uma única vez, para dar algumas moedas, onde as crianças tinham estendido uma corrente de metal velho para impedir a passagem.

Ele nos levou para um lugar chamado Cabo de la Vela onde o turismo movimenta a única rua. Dormimos em hamacas, as redes, de frente para o mar muito calmo e azul. Impossível dormir bem, por isso acordei com um céu cheio de estrelas sobre a água escura.

Comemos no restaurante observados por mulheres indígenas que ficam por ali tecendo e vendendo suas bolsas típicas e também assistindo uma TV que fica ligada todo o tempo. Harry Potter hablando espanhol e muitos closets de bumbuns balançando frenéticos em clips de um estilo chamado Champeta.

Em outra cidade, em uma praça, acontecia uma competição de crianças, com menos de dez anos, dançando essa dança erótica: os meninos atrás das meninas simulando um ato sexual. Minha filha ficou chocada com os pais que torciam, estimulando seus filhos e triste com o menino eliminado sob gritos que diziam: “fora gordinho!”

O interessante de viajar é que parece que tenho a oportunidade de conhecer mais do meu país ao conhecer um outro. No meu, vivo numa bolha classe média, fechada dentro de um carro. Sei que nele também há miséria, muitos pais nada conscientes da sensibilidade das crianças, e falta de água, que agora está muito perto de mim.

Ficamos conjecturando como aquela comunidade ali no deserto poderia alterar suas condições precárias de vida. Minha filha lembrou dos trabalhos da designer Paula Dib. Nesse caso, ela possivelmente, organizaria as artesãs indígenas, pesquisaria com elas uma maior amplitude de soluções estéticas e conseguiria um mercado no exterior para o trabalho delas.

Eu pensei que o governo poderia construir ali, naquele lugar tão belo, um resort para turistas de todos os bolsos, para garantir a diversidade, que empregaria todas as pessoas da região. E que o objetivo não seria o lucro que privilegiaria, por exemplo, contratar o empregado pelo preço mais baixo e sim criar uma maneira organizada do povo todo viver do turismo e não apenas aqueles poucos que já se organizaram e monopolizam o transporte, a hospedagem e o restaurante. Na verdade, o necessário seria conhecer a fundo a comunidade, ouvi-la, descobrir junto o que fazer.

Num lugar próximo dali, no Santuário dos Flamingos, onde o turismo é bem menor e a pobreza e o lixo espalhado muito mais gritante ainda, estávamos rodeados de crianças que falavam entre si no idioma indígena. Pediram a água que levávamos e que são acondicionadas em bolsas plásticas, em vez de garrafas, que são mais caras. Demos uma delas, sugerindo que o menino que a recebeu dividisse com seus amigos que estavam ali juntos. Ele bebeu tudo sozinho. Assim é por todo lado: desigualdade - uns pegam para si e têm, outros não.

No grupo havia uma pequena menina e seu irmão com aparência bem indígena, eles tinham olhos castanhos muito profundos, tão bons de se olhar.
Agora, já longe, me pergunto: Por que não lhes demos toda a água que tínhamos?

Que enorme sorte é poder ter água para beber, se banhar, cozinhar... Agora minha enorme São Paulo está seca também. Milhões de mãos estendidas pedindo chuva. Que ela possa ser generosa, ouça e nos atenda. E lá, no deserto, onde a chuva não pode ouvir, que surjam pessoas pensando um modo de proteger seus habitantes da face triste da desigualdade. Lá, aqui, por todo o lado.



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Jany

Escritora e Focalizadora de Dança Circular no UlaBiná.

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