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Planeta Eu

22/07/2013

Medalhas no meu peito!


Aos nove anos, estive na platéia do auditório da minha escola. Ouvi chamarem algumas colegas para o palco. Uma delas era Ana, uma loirinha de rosto gracioso. A apresentadora foi dizendo as notas altas que Ana tirou em várias matérias e foi colocando em seu peito uma medalha por cada êxito. Eu fui chamada lá quase para o final da cerimônia e fiquei com duas medalhas. Depois vieram as mais desfavorecidas ainda naquele campeonato que nem sabíamos que estávamos competindo. Elas ficaram com apenas uma medalha.

  Eu não sabia que aquilo ia acontecer, nem naquele dia, nem quando estava fazendo as provas! Lembrei dessa história porque essa noite sonhei com Ana, a possuidora de tantas medalhas, a número um da classe. Sonhei que alguém dizia que ela era importante para mim. Amo os sonhos porque quando consigo decifrá-los, eles me explicam.. Meu terapeuta sempre diz que tudo no sonho sou eu mesma. Todos os personagens e acontecimentos falam de mim. Sempre discordo, quero achar que ele, no meu sonho, por exemplo, é ele mesmo. Aí ele me pergunta: “mas quem fabrica o sonho?”. Quando resolvi aceitar esse jeito de olhar, parei de ficar ligada no enredo óbvio e comecei a entender o que eu estava tentando me dizer.

Claro que há sonhos premonitórios e também de outras qualidades. Minha filha, por exemplo, já sonhou com conversa que tive com meu marido e com coisas que me acontecem que ela não teria como saber. As vezes ela sonha que fala com alguém que, no dia seguinte, dá continuidade ao que conversavam no sonho. Sim, na minha opinião, há sonhos que não se encaixam na teoria dele e ele mesmo sabe disso, na sua própria condição de sonhador. Mas, é útil demais encarar o sonho como partes nossas atuando e daí extrair muita informação, esclarecimento.

  Nesse momento da minha vida a água está batendo no meu bum bum e tenho que me levantar. Tenho que me definir muito mais profissionalmente, e venho pensando porque adio o inadiável, porque me boicoto frequentemente, porque não boto o Bloco na rua de uma vez por todas. Depois do sonho desta noite com Ana entendi que, pelo menos um dos motivos, tem a ver com o fato de aos nove anos ter tido a informação de que não havia lugar no meu peito para muitas medalhas.

Naquela época eu não tinha como relativizar e assim me lembrar de que eu não sabia que meu resultado nas provas ficaria visível num palco e materializado em medalhas. Eu não sabia também que isso de exaltar uns e diminuir outros é cruel e equivocado, e menos ainda que prova deveria ser para avaliar também o desempenho do professor, averiguando o quanto seus ensinamentos estão atingindo seus alunos e não para estigmatizar. Nem poderia imaginar que no futuro eu teria filhos que estudariam numa escola onde não se faz provas!

Eu era apenas uma menininha colocada numa armadilha e que ganhou um carimbo: duas medalhas. Um carimbo para levar para a vida. Hoje eu sei que   ninguém é uma, duas ou cem medalhas, apesar de muitas pessoas no mundo acreditarem que são. Hoje eu subiria naquele palco, chamaria a Ana de lado e as outras colegas e dividiríamos as medalhas por todas. Sei que Ana iria preferir. Não é bom ser invejada, não é de fato bom ser melhor que os outros, por mais que acreditemos nisso, por mais que nos vendam essa ideia.

Aprendo no filme “I Am ”, de Tom Shadyac, que essa ideia da competição vem da interpretação equivocada da Seleção Natural de Darwin. Sim, os mais favorecidos podem ganhar o pedaço maior do bolo se empurrarem seus colegas ou a namorada mais cobiçada, mas isso não significa que sua vida será melhor por isso. Aprendo que Darwin falou em seu primeiro livro duas vezes sobre competição e mencionou mais de noventa vezes a palavra Amor. Os estudiosos do filme falam que nossa natureza é colaborativa, que somos piedosos e solidários. Somos estimulados para isso pelas nossas células espelho, descobertas em 1994, que ativam em nosso cérebro a mesma área que está sendo ativada por alguma ação no cérebro de alguém que estamos observando. Por isso é tão difícil não rir quando alguém ri perto de nós, por exemplo.

No filme também fico sabendo que cientistas estavam estudando um grupo numeroso de veados vermelhos que diariamente decidiam para qual das três poças d água próximas eles iriam se dirigir. Eles imaginavam que a decisão cabia ao veado chamado de Alpha, por ser o mais forte e poderoso de todos. Observando através de filmagens, eles perceberam que de repente um veado olhava para a direção de uma das poças, aí outro olhava e outro e outro. Quando a maioria deles olhava para a mesma direção todos se encaminhavam para lá. Ou seja, eles votam! Decidem e agem juntos, diariamente!

Uma amiga fez um albergue no terreno da sua casa. A ideia é que as pessoas ficassem apenas por alguns dias, no entanto logo surgiram três pessoas que não se conheciam querendo morar por tempo indeterminado. São dois homens e uma mulher. Dormem no mesmo quarto, dividem o banheiro, a cozinha. Estão felizes! E colocando para baixo a ideia de que as suítes são imprecindíveis! Claro, acredito que eles prefeririam um pouco mais de privacidade, mas o fato deles interagirem com interesse e alegria e não procurarem outro lugar para ficar demonstra, para mim, que a convivência pode ser um alimento muito mais atraente do que o conforto individualista!

No momento estou de novo numa casa com várias pessoas, também dividindo quartos e banheiros, como acontece sempre nas férias escolares . Dessa vez os meninos estão com quase dezoito anos, já não estão mais interessados em construir castelos na areia, agora filosofam. Compridas conversas explorando suas ideias sobre o que é a vida. Há também duas crianças pequenas. Um deles é um menino de nove anos, como eu, quando me deparei com um peito com duas medalhas. Fui andar com ele no mato, encontramos um riozinho e uma vara de pescar. Na verdade, um bambu com uma linha sem anzol. Ele disse: “Vou pegar para mim”. Depois pensou um pouco, largou o bambu e disse: “Não, vou deixar aqui. Se eu levar eu vou ser um ladrão e eu não quero ser. Quando crescer prefiro ser como a Julia, que trabalha com desenho”. Que bom que ele pode conviver com a Julia e assim conhecer outras possibilidades.

Depois fomos para o outro rio, esse bem grande. Sugeri que ele deixasse a bicicleta para irmos ao mangue a pé. Ele deixou relutante. Quando estávamos voltando eu disse: “Será que alguém pegou nossa bicicleta?”. Dessa vez ele estava do outro lado, daquele que poderia ser roubado. A bicicleta estava no lugar e eu contei do Sítio Bahia, em Botucatu. Lá tinha uma lojinha que não tinha ninguém tomando conta. Nós entrávamos, fazíamos as compras, pagávamos e pegávamos o troco de uma caixinha. Deixávamos anotado o que tínhamos comprado. Um mundo de confiança!, mas também um mundo bem mais igualitário ali, naquele pequeno bairro.

Esse menino que está comigo mora milhões de vezes pior do que as pessoas que tem casa no Condomínio onde estamos. Ele não tem como ter o celular, o tênis, o carro que outras tantas pessoas por aqui têm. Deve ser difícil para ele aceitar que no peito dele não tem tantas medalhas! Ele entendeu que roubar não é um caminho. Está acreditando no estudo. Que não lhe roubem essa crença! Sei que todos os dias na sua escola lhe reforçam a ideia de que ele é uma mau aluno porque algo travou e ele não consegue assimilar matemática. Quando eu o vi empinando pipa, sua incrível agilidade na bicicleta, e, ao correr, seu folego de tirar o folego fiquei com vontade que seus professores fossem desafiados a fazer o que ele faz. Tenho certeza que teriam notas ruins!

Naquele belo filme: “Quem se importa?” um rapaz, Premal Shah, reflete sobre o que ele chama de “loteria ovariana”. Depende sabe-se lá do quê, e você nasce numa família rica de Nova York ou num Campo de refugiados na África. O menino de Nova York pode sofrer de inanição afetiva e o menino do Campo pode se deliciar em brincadeiras coletiva com seus pares. Há mais em jogo do que o dinheiro para enriquecer a vida de alguém, mas, tanto eu como você, não queremos para ninguém um Campo de Refugiados. Mesmo assim eles existem, como existe a exagerada desigualdade que facilmente pode atiçar a vontade de roubar num pequeno menino...

 Na foto minha irmã e eu na idade que ganhei minhas duas medalhas.
 
 
 


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Jany

Escritora e Focalizadora de Dança Circular no UlaBiná.

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