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Planeta Eu

16/07/2014

A menina e seus amores obsessivos


Falar e escrever na primeira pessoa e assim evitar o famoso “a gente”, que tanto falamos aqui na minha São Paulo, não é fácil. É ir contra um hábito muito bem instalado e é também se expor bastante, mas é nisso que acredito: só posso falar com propriedade de mim, da minha experiência. Por isso conto aqui que tive dois amores obsessivos. Escolhi falar sobre isso porque tenho encontrado muitas pessoas presas nesse labirinto, e espero que o que eu descobri sobre mim, nessas situações, possa ser útil.

Para início de conversa entendi que eu, essa adulta que aqui escreve, não é a única Senhora do meu Castelo. Quando alguma emoção (paixão, ciúmes, raiva, tristeza...) se manifesta exageradamente significa que quem está no comando do barco é outra “pessoa”.

Descobrir quem é essa que me fez tão obsessivamente apaixonada foi minha tarefa por alguns anos. Não foi uma escolha, quando percebi, tinha elegido esses dois homens, um em seguida do outro, para colocar todo meu foco, pensamento, sentimento.

Eram amores impossíveis. Um deles tinha uma enorme diferença de idade em relação a mim e o outro era casado. Olhando agora posso dizer que ambos foram meus parceiros nessa empreitada de autoconhecimento. Eu os escolhi a dedo para isso e eles, cada um a seu modo, colaboraram, se envolveram, não na medida que eu queria, mas de modo perfeito para me trazer o sofrimento que me levou a buscar compreender.

Ninguém “briga” sozinho, precisa que o outro faça sua parte, e eles fizeram. Se aproximavam e se afastavam, sinalizando interesse e recuando, querendo e desistindo. Os objetos dos amores obsessivos costumam fazer isso mesmo, são bons em ambiguidade. Claro, sentem que estão envolvidos com vespeiros instigantes que naturalmente despertam medo de picadas. Sendo muito assediados, desconfiam que há mais coisas em jogo, e que todo aquele imenso amor dedicado a eles tem algo de estranho. Talvez se envolvam nesse tipo de dueto porque precisam, por sua vez, também aprender algo sobre si.

O que pude descobrir foi como se formou minha linguagem amorosa na infância e quem era que assumia o controle da minha nave quando eu amava e sofria. Era a menina que fui e que se criou num campo de relacionamento com os adultos que era permeado pelo sofrimento. Nesse tempo e nesse campo eu existi. Fui criança por um bom tempo e quem eu fui ainda está aqui. Por que não estaria? Como teria ido embora?

Partes minhas, desvairadas, desconhecidas vieram assim para fora lideradas pela menina que se mudou de mala e cuia para meu inconsciente quando cresci. Custei a perceber que era para ela que eu precisava olhar e não para o outro, para aquele que puxava aquele conteúdo. Observando minhas interações frustrantes com esses homens pude perceber como me estruturei, como fabriquei a lente com a qual vejo o mundo, pude ouvir o que a menina tinha a dizer. Quais eram seus pensamentos, suas crenças.

Consegui ouvi-la prestando atenção ao que eu dizia para eles com minhas atitudes: “Não escolha ninguém que não seja eu. Se você não está comigo, eu não tenho vida”. Essas eram, na verdade, frases para meu pai, que eu disse, sem palavras, por toda a minha infância.

Eu não tinha uma sensibilidade compatível com a da minha mãe e com meu pai sim. Por isso estar com ela era deserto, e com ele oásis. Vivia a espera desse oásis, como imaginava que estar ao lado dessas homens seria também um lugar de êxtase, mas eles, como meu pai, não saciavam essa sede. Meu pai trabalhava muito e imagino que eu ficava querendo demais vê-lo. Quando ele chegava eu me enchia de vida, só que ele vinha cansado, cheio de problemas na cabeça e por certo fui dormir muitas vezes na espera. Esse meu pai que tinha o poder de me trazer o céu, acabou por me deixar “gostando” de estar a mercê. Ficar apaixonada desmedidamente é ficar totalmente na mão do outro. Foi talhado assim meu jeito de amar.

Aos poucos foi ficando claro como se fez a dinâmica lá em casa. Era a dor da minha mãe dando as cartas na mesa, porque também esperar pelo meu pai era complicado para ela, que imaginava que ele estava com outras mulheres. Muitas crenças foram passadas para mim nesse sentido: “homem sempre trai, não se pode confiar neles." A questão da confiança era o ponto chave ali.

Ao crescer fui criando estratégias adaptativas por conta disso, entre trair ou ser traída, escolhi trair. Não sabia terminar um namoro sem antes começar outro e nunca esperava nada de ninguém, assim não corria o risco de me decepcionar. Quando chegaram, as paixões foram vírus nesse esquema de proteção, porque desses homens eu esperava tudo.

Reconhecer que eu gostava e protegia meu sofrimento foi minha última descoberta. Não queria me curar de amar obsessivamente, nem percebia que era isso que estava acontecendo. As justificativas para o exagero eram que eu tinha encontrado finalmente um amor especial, que havia entre eu e esses homens uma conexão de outras vidas etc. Era uma maneira de deixar que a menina que fui continuasse viva.

Faz muito tempo que vivi essas situações, mas a elaboração persiste até hoje, e ter me tornado consciente não me liberou totalmente de ter a menina, muitas vezes ainda, puxando meu cabelo para prestar atenção nela, mas agora estou livre de ser guiada por sua dor. A menina foi ouvida, compreendida, apesar da sua linguagem simbólica, que fui aprendendo a traduzir.

Acredito que as dores descem dos nossos ombros, qual uma mochila, quando tomamos consciência delas, porque ao enxergarmos se inicia um processo de transformação natural. Como as feridas no corpo que tendem a se cicatrizar quando são removidas as sujeiras, a psique também tende a se curar, quando são integradas suas partes ignoradas. É o que diz a teoria psicológica, é o que tenho vivido.

Hoje estou na praia, férias, e entramos no mar, eu e minha menina! Ela sorri para mim, não está mais a espera de nada que já não esteja aqui, no agora! Gracias!

Na foto, eu bebê com meus irmãos.


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Jany

Escritora e Focalizadora de Dança Circular no UlaBiná.

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