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15/04/2010

Sabedoria caipira


Por Risomar Fasanaro


Chegou a notícia que um caipira estava querendo vender suas terras, lá pelo interior de Goiás, e Adiles, homem da cidade, se interessou e foi até lá.

Já na entrada foi se encantando com o verde da paisagem ainda quase virgem no início dos anos setenta. Emas caminhavam com elegância ao lado da estrada, araras voavam em bando, quatis pularam na frente da caminhonete, e ele quase atropelou um tamanduá-bandeira. Era beleza demais pra um homem da cidade. Ia comprar aquelas terras.

De repente havia descoberto que era um homem do campo; ele e a terra eram uma só matéria, que de longe ninguém saberia onde terminava o cidadão Adiles e onde começava o chão, a terra, a poeira. Tudo era de uma só cor: ele, a roupa, as botas, a caminhonete. Tudo ocre, cor essencial à paleta de qualquer pintor, imprescindível à vida daquele homem. Fizessem algum exame e encontrariam um pouco daquele chão do Brasil central no mais fundo do seu coração.

Chegando lá encontrou o caipira de cócoras mascando fumo, em frente a uma choupana. Duas galinhas passeavam sobre a mesa da cozinha, uma delas fazia suas necessidades sem nenhuma cerimônia. Um bando de galinhas d’angola mariscavam o terreno. Eram muitas.

O caipira deu o preço e Adiles negaceou. Conversa vai, conversa vem, se inicia uma conversa repetitiva e surreal:
-Mas o Sr tem certeza que quer comprar isso aqui, moço? Isso aqui num presta pra nada não...

Adiles, a lama grudada nas botas, insiste:
-Quero. Quero ver quanto o Sr. quer, pra ver se compro...
-Tá bom, se mecê qué, mecê compra. Com as terras o dr. não quer comprar essas galinhas d’angola tamém?

Adiles, matreiro, pensa: vendendo as terras ele não vai levar essas galinhas d’angola. Fico com elas sem pagar nada...
- Não...quero não.
-Leva seu Adiles, faço um precinho bom pro Sr...

Com ares de desdém, repete:
-Não... eu nem gosto de galinha d’angola...

E pensa: sou lá bobo, pagar por uma coisa que vou ter de graça...
-Mas o Sr. quer mesmo as terras? Vamos negociar.

Negociam, e Adiles se despede. Marcam o dia do acerto de contas. Dias depois, ele volta. Vem acertar o pagamento. As galinhas continuam em suas mesmas tarefas, fazendo suas necessidades prementes sobre o fogão à lenha, e as galinhas d’angola passeando pelo terreiro. “Ainda estão aqui, essas galinhas d’angola? Ele resolveu deixar elas pra mim...”

O caipira insiste, e torna a oferecer as aves:
-E ai, o Dr. vai querer as galinhas d’angola? Faço precinho bão...

E achando-se esperto, Adiles pensa: ele já está com quase toda a mudança na carroça, como é que vai querer pegar essas galinhas que correm e voam mais depressa que azougue? Vai é deixar todas elas aí no terreiro.

O caipira torna a perguntar:
-Não vai querer mesmo?
-Não, não quero não, seu Damião...

Vai daí que o caipira se levanta do tronco onde estava sentado, e devagarinho entra no casebre e volta com um embornal. Enfia a mão no embornal e atira milho para as galinhas d’angola. À medida que atira os milhos, as galinhas vão comendo, e dois ou três minutos depois é plaft, ploft...plaft...ploft...uma a uma vão caindo no chão. E ali ficam estateladas, parecem mortas.

Surpreso, o comprador acompanha tudo sem entender o que se passa. Quando todas estão desmaiadas, o caipira se levanta, pega um saco, vai recolhendo uma a uma e colocando-as no saco. Curioso, Adiles pergunta:
-Mas o que é que o Sr. fez?

E o caipira falando devagar, muito calmo...
- Sabe não? É milho. Milho que deixei desde ontem de molho na pinga e agora dei pra elas...Agora fica fácil levar as bichinhas comigo.

Pega o saco cheio de aves, sobe na carroça, e se despede:
-Boa sorte com sua fazenda, seu Adiles!


Risomar Fasanaro
Pernambucana, veio para Osasco com 11 anos.
Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de "Eu: primeira pessoa, singular", obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.


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