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04/09/2013

Pobres engenheiros


Creio que, atualmente, 80% dos meus clientes individuais são engenheiros. Mais do que coincidência, a busca por técnicas de relacionamento e desenvolvimento pessoal e profissional por parte dessa categoria, está ligada aos novos tempos. 

Até cerca de uma década, a formação técnica era suficiente para o comando de uma unidade industrial, de uma linha de produção e até de uma central de serviços. Hoje esse conhecimento continua valioso, mas equipara-se a outra demanda de mercado: a habilidade para lidar com pessoas, dentro e fora da empresa. Algumas organizações chegam a colocar a capacidade de lidar com pessoas como 60% do peso do perfil profissional, deixando os outros 40% para o background técnico.

A mudança começou em meados dos anos 1990 quando o mundo corporativo entrou na chamada “Era da Informação”. Foi quando o consumidor ganhou mais voz, principalmente pelas facilidades de acesso aos meios de comunicação, propiciadas pela internet. Até então, quando se comprava um produto com defeito, o máximo que se conseguia era reclamar com o vendedor ou se estabelecia um contato distante com a fábrica. Hoje, qualquer problema seja no produto, seja no atendimento, chega aos ouvidos e olhos de milhares de pessoas em alguns segundos.

Com isso o consumidor ganhou poder, sentiu que pode falar, pois é ouvido. Essa voz passou a ecoar em locais cada vez mais distantes. As comunidades começaram a sentir que poderiam questionar a fábrica construída de repente ao lado de um bairro residencial. Podiam contestar o barulho, a poluição, o trânsito. E, da comunidade, fazem parte os trabalhadores das empresas, os quais também perceberam seu poder dentro das corporações. O empregado passou a opinar, querendo ser ouvido.

Novo líder

Nesse novo cenário, o conceito de comandar uma organização também mudou. Organizar a linha de produção e certificar-se de que todos os processos seriam cumpridos no prazo deixou de ser suficiente. Os gestores passaram a ter de administrar relacionamentos dentro e fora da empresa, a compreender e aproveitar o melhor da diversidade, dar informações e se relacionar com o entorno na melhor política de “boa vizinhança”.

A demanda surgiu e foi diretamente repassada para quem pouco fora preparado para lidar com isso, já que em pesquisa recente da revista Época Negócios, constatou-se que 53% dos líderes de grandes empresas no Brasil são engenheiros.

A lacuna na formação profissional trouxe problemas. Afinal eles foram preparados para lidar com cálculos e dados e não com a oscilação e a diversidade da mente e das emoções humanas. Tentando correr atrás do prejuízo, muitos engenheiros buscam formação complementar em ciências humanas, treinamentos de curta duração ou a ajuda de profissionais de Coaching.

A boa notícia é que quando bem trabalhados por seus coaches, esses “mestres das ciências exatas” vêm demonstrando habilidades extras. No começo, muitos têm dificuldade em entender seu novo papel, por isso a ajuda profissional é imprescindível. Mas, com o tempo, conseguem buscar internamente recursos que não sabiam que tinham, desabrochando emoções e afetuosidade, descobrindo, inclusive, aspectos de sua própria identidade que até então estavam escondidos atrás do raciocínio lógico.

A realidade do novo líder não é fácil, mas aqueles que estão dispostos a se descobrir e se entregar a ela sem resistência e abertos ao aprendizado vêm se mostrando satisfeitos. Inclusive com melhorias em sua vida pessoal. O engenheiro dos anos 1970, 1980 aos poucos vai morrendo, dando lugar a um profissional mais completo e mais conhecedor de si. E porque não dizer, mais feliz.


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