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27/01/2010

Raízes:

Ela não gosta de dar entrevistas, de aparecer em fotos e menos ainda de dizer que é imigrante.


Ela não gosta de dar entrevistas, de aparecer em fotos e menos ainda de dizer que é imigrante. Antonia Maria Somlo, ou simplesmente a Toni do Jornal Daqui, nunca se considerou como tal. "Para mim, imigrante é a pessoa que optou por deixar o seu país para viver em outro. Eu não optei por nada. Quando saí da Hungria tinha seis anos". Na verdade, a sua história (assim como as de outros milhares de imigrantes), daria um livro, ou pelo menos uma longa entrevista. Mas como em textos de internet não dá para se estender muito, o que queremos saber é a relação que aqueles que vieram de "reinos tão, tão distantes..." têm com o Brasil.

Toni conta que nasceu durante a guerra e que, em 1949, durante a reconstrução de uma Budapeste arrasada pelos nazistas e sob ocupação russa, sua mãe Suzanne pensava em liberdade. Certo dia, o pai, Estevão, soube que a sua empresa sofreria uma auditoria no dia seguinte. Na verdade, essa era apenas uma desculpa para que os soviéticos tomassem as empresas e prendessem os seus donos. Assim, antecipando o que poderia acontecer, ele fugiu para a Áustria. A família iria em seguida. Como se atravessava a fronteira a pé, passou-se um mês para que tivessem a notícia de que ele havia conseguido chegar em Viena. "Assim que minha mãe soube que correra tudo bem, preparou também a sua estratégia de fuga". Fazendo-se de viúva abandonada, dona Suzanne, arrumou uma mala apenas com fraldas e disse a todos que iria para o interior visitar parentes, deixando tudo para trás.

Apesar de na época ter apenas seis anos, Toni lembra-se de alguns detalhes da fuga como a viagem de trem até próxima à fronteira austríaca, a sua travessia necessariamente durante a lua nova, a injeção para dormir que a mãe precisou aplicar na irmã, Beatrix, de apenas um ano, para que não corressem o risco dela chorar e a sensação do coração quase saindo pela boca de medo ao perceberam que, assim que ultrapassaram a cerca de arame farpado, estavam sendo seguidos por homens com lanternas, felizmente austríacos. Após um ano morando em Viena, a vida da família voltara à normalidade. Seu Estevão estava bem empregado, Toni freqüentava a escola e já tinham amigos. Mesmo assim, dona Suzanne não queria ficar lá. Queria viver bem longe da Europa. Assim, mudaram-se para o Brasil. "Não sei porque escolheram vir para cá. Provavelmente já tinham amigos aqui".

Em 1951, ao chegar em São Paulo, Toni, em pouco tempo, desaprendeu o alemão, passou a falar mal o húngaro e rapidamente aprendeu o português. "Não me sentia imigrante, mas me sentia diferente, apesar de meus pais fazerem questão de que assimilássemos a cultura brasileira. Eles achavam que quando se escolhe um país para viver, não é para se fixar em guetos. Eu tinha amigos, mas uma educação e hábitos diferentes, como a comida e a maneira de vestir. Minha mãe me vestia com vestidos curtos e tranças e as meninas brasileiras usavam vestidos mais longos e cachos. Em casa, era obrigada a ouvir música clássica e a ler muito". Mas é da infância no Brasil que Toni tem outras lembranças, boas lembranças, de quando morava na Cidade Monções (região do Brooklin) e brincava nas ruas de terra; de quando fez uma excursão pelo mato (hoje, a Marginal), chegando à beira de um rio (rio Pinheiros), e de quando, a caminho da escola, foi apresentada a um pé de jabuticaba.

Para ela, o Brasil tem uma situação especial. "Toda família brasileira é formada por estrangeiros, por imigrantes". Mas, foi, aos 17 anos, quando os pais a mandaram estudar na Suíça, que Toni realmente descobriu que até poderia se considerar uma brasileira. "Eu cheguei lá e me senti mais diferente ainda. Ali, me sentia latina, não tinha nada a ver com o lugar e com o povo. Tinha colegas de várias nacionalidades, mas eu me entrosei com as latinas e a minha melhor amiga era portoriquenha".

Depois que optaram em viver no Brasil, seus pais, mesmo indo à Europa algumas vezes, nunca mais fizeram questão de ir à Hungria. Por sua vez, Toni voltou duas vezes para a terra natal. Mas, faz questão de dizer, como turista. Na verdade, foi justamente nessas viagens que descobriu que tinha um pé em dois mundos. "Lá, não era de lá, e, aqui, não era daqui. Algo muito estranho. Sei muito pouco dos meus antepassados e fico pensando como alguém pode largar tudo e se deslocar para outro país, deixando uma vida inteira e as suas raízes para trás. Mas é assim. Na Hungria, me sinto somente uma visitante".


Por Angela Miranda
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Angela Miranda
Jornalista, Geógrafa e moradora da Granja Viana há mais de 20 anos.

angela@granjaviana.com.br








 

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