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14/09/2006

“Yo soy Brasileño”


No exterior soa bonito essa frase, seja em que língua for. Passa um ar neolatino, de superioridade explícita. Mais que palavras com ginga, mais até que palavras boas de bola, ser brasileiro fora do país é um orgulho muito grande. Desculpa, orgulho não, orgulho não é isso. É uma vitória ser brasileiro fora do país. É como se a miséria deixasse de existir e os políticos formassem uma só mesa partidária em busca da ordem e do progresso. O Brasil se torna um colosso pelo qual você levanta qualquer bandeira cegamente...

E foi isso que eu fiz, como todo estrangeiro morando fora do Brasil: comprei uma bandeira verde, amarela, azul e com estrelas. Desfilei por Barcelona e fui fotografado por ingleses. Ninguém sente isso dentro do Brasil, ninguém. Ser brasileiro aqui dentro ganha conotação de justificativa e de desculpa. Aquela que todo mundo tem a plena consciência de que é mais falsa mentira, mas aceita por falta de alternativa. É misericórdia. Ser brasileiro aqui é poder fechar a janela no farol com medo de que o açúcar seja só um pretexto de um seqüestro relâmpago. Ninguém desfila com uma bandeira. Nem nos cinco campeonatos mundiais. O que desfilou foi a derrota alheia e a covardia mundial de se ajoelhar a uma pátria sem chuteiras. As bandeiras eram o pano de fundo de uma alegria redonda e irregular.

Lá fora não, a economia cresce a cada passo e a cada passe. Jogar futebol não era perder ou ganhar, era provar e apenas provar. O que, eu não sei, mas eu provei. Pintei o céu de azul de anil, contei da aquarela e das águas de março. É fácil ser brasileiro lá fora, com um par de batucadas se arranca um sorriso e se ganha um beijo. Assim, por tão pouco, o brasileiro forasteiro é o herói dos sete mares. Mas a onda que leva trás de volta. Voltei com o vidro fechado e com as estrelas encardidas pelo falso romance. Ser brasileiro não é título, nem lá, nem aqui. A bandeira está suja e não tem água que limpe.

Ser brasileiro é esfregar, por mais que seja inútil.


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