Paulo Zanettini - O Indiana Jones de Cotia

Arqueologia hoje

Todo mundo tem alguma noção do que é arqueologia. Afinal, filmes de aventura, livros de suspense ou videogames têm sempre um arqueólogo, tipo "Indiana Jones", mergulhado em alguma selva impenetrável, buscando objetos raros produzidos por estranhas civilizações. De fato, na vida real, o arqueólogo enfrenta situações inusitadas. Mas, a visão difundida pela indústria do lazer, a respeito desse campo de pesquisa, é limitada e ultrapassada. A arqueologia, hoje, rompeu com a barreira do tempo e vem se dedicando, também, ao estudo do nosso passado recente, fazendo com que encontremos arqueólogos atuando em grandes centros urbanos e escavando o interior de edifícios, fábricas e quintais. "A arqueologia está preocupada em recuperar os locais ou espaços chamados sítios arqueológicos relacionados a processos da ocupação e da passagem do homem pela terra, não importando mais a data em que isto ocorreu.Não se acredita mais na história de que a matéria prima do arqueólogo precisa envelhecer. O profissional também tem que estar no presente, atuando no planejamento dos municípios, interagindo com a preservação ambiental. A questão do lixo e do impacto ambiental, por exemplo, são temas que exigem a participação do arqueólogo porque são o resultado da ação do homem no século 20. Século onde se deu o maior impacto sobre o meio ambiente, século de maior transformação do planeta, século que ainda não é alvo da arqueologia."

Quem explica isso é Paulo Zanettini, arqueólogo, morador da Granja Viana e que, recentemente, realizou uma visita técnica à Área de Proteção Ambiental do Morro Grande. Sua especialidade é o Brasil pós-descobrimento, um Brasil que uniu três civilizações (indígena, européia e africana), que forjou uma nova cultura. Como isto aconteceu? É essa resposta que procuram os arqueólogos.

A caipirice de São Paulo

A São Paulo pós-descobrimento possui muito pouca documentação porque, até o século 19, a região que falava um misto de português e indígena, era quase analfabeta. Ao redor dessa cidade existiram quilombos, aldeamentos indígenas e muitos grupos de imigrantes, cada um com sua estratégia própria de adaptação, sua forma de morar e seus hábitos cotidianos. São Paulo era, também, uma região rica em fazendas que produziam para o mercado externo (cana de açúcar, trigo, milho). Em torno delas, se estruturou toda uma vida que nos traz muito do que somos hoje. A maior metrópole do Cone Sul, uma das maiores cidades do mundo, foi extremamente caipira até o século 19 e nós somos herdeiros dessa caipirice. " Mostrar essa herança caipira, recuperar um pouco dessa dimensão rural neste espaço metropolitano são tarefas da arqueologia que podem conduzir a uma reflexão e levar o cidadão a pensar melhor cada vez que for implantar um loteamento, cada vez que for duplicar uma avenida".

A Grande São Paulo- Oeste

A grande região oeste tem muito desta caipirice e comunidades como Embu, Cotia, Juquitiba, Carapicuiba e Santana do Parnaíba têm muita coisa em comum em sua origem. Mas, com o crescimento da Grande São Paulo e a convergência do tráfego e dos interesses para o centro da Capital, esses contatos foram se perdendo. Mesmo estando mais próximos em origem e em distância, era mais fácil ir do Embu para São Paulo do que para Cotia.

Acontece que o Rodoanel está trazendo de volta estas antigas conexões, redesenhando a região metropolitana e prenunciando a nova cidade global do século 21. Ele cria novas distâncias e novos espaços, aproxima a periferia e articula as cidades da Grande São Paulo. Trabalhos realizados em suas obras encontraram cerca de 14 sítios arqueológicos que mostram a existência de um patrimônio muito rico na região da Grande São Paulo - Oeste que tem que ser levado em conta e pesquisado.

O conjunto das passagens dos vários tipos humanos deixou para a região um patrimônio verde interessante. Este verde e esta paisagem não são originais. Foram construídos durante os milhares de anos de ocupação da região. Aqui já viveram caçadores que criaram trilhas e intervieram na fauna e na flora. Por mais de 2 mil anos existiram grupos de agricultores que se valiam de boas terras, cortando as matas e criando aldeias. Depois, vieram os portugue-ses que plantaram e aglutinaram gente das mais diversas regiões. Ao redor desses aldea-mentos, surgiram as grandes fazendas dos sertanistas e dos produtores rurais. Aí chega a ferrovia. O século 20 traz japoneses, alemães e italianos. Com a expansão da linha férrea, Osasco acaba trazendo uma industrialização que se espalha por todo o vale do Tietê. E, ao redor dessa industrialização, se forma um cinturão de proteção e de produção de alimento da cidade.desaparecimento da história e memória do lugar.

Paulo Zanettini tem alertado os municípios para que analisem também as áreas não contempladas com essa legislação porque, ao contrário do que se pensa e do que dizem os grandes empreendedores, esse estudo traz muitos benefícios. "A intensão não é barrar nada, nem interromper o desenvolvimento. Acontece que desenvolvimento e preservação podem ser articulados harmonicamente. E isso vira texto, vira referência, vira alimento para a comunidade. Se a região ainda guarda vestígios de outras formas de sociedade elas podem e devem ser mantidas".

Cotia e Granja Viana

Em relação aos grandes empreendimentos que vão acontecer na região, o ideal seria que todos passassem pelos devidos estudos e pelos devidos licenciamentos. A arqueologia é uma ciência que contribui para o desenvolvimento e que poderá abrir um leque de novos descobrimentos em e sobre Cotia. Existem bens aqui presentes que são jóias raríssimas e que precisam ser incorporados à paisagem local e à memória do cidadão. Nada impede que um loteamento bem planejado crie, no local, uma referência ao monumento encontrado. "Por que Jardim Providence e não Jardim da Olaria, por exemplo? Por que mudar nomes de ruas? É importante, por exemplo, que a Estrada do Capuava e a Estrada Velha do Embu continuem se chamando assim. O nome traz a história e cria marcos. De outra forma, cria-se amnésia e a cidadania nova que se forma aqui, fica sem nenhuma identidade e sem referência com a história do lugar, transformando a Granja Viana em mais um bairro sem memória da Grande São Paulo".

O Sítio do Mandu, a Casa do Padre Inácio e a Reserva do Morro Grande são patrimônios federais localizados em Cotia. Por falta de envolvimento dos governos municipais, os dois primeiros foram perdendo, ao longo dos anos, suas características mas, felizmente, devem sofrer ações do IPHAN, num futuro próximo. Para termos nossa história e nossa memória cultural, Cotia precisa facilitar a visitação aos locais, sinalizar o acesso, cuidar dos arredores e valorizar esses e outros bens históricos que possam aparecer. "Não podemos perder todo esse passado colonial que temos aqui. A preservação do patrimônio atrai pessoas. Para serem preservadas, as histórias e a memória da região precisam ser relembradas e recontadas.O governo municipal precisa ver o turismo, a arqueologia e a restauração como fontes de geração de renda para a cidade. Bons exemplos são os municípios de Embu e Santana do Parnaíba e a recente obra realizada ao redor da Aldeia de Carapicuiba. Todos são pontos de referência da nossa memória cultural que estão perdidos dentro da metrópole sufocada".

A diretora do departamento de Turismo de Cotia, Cristina Oka, preocupada com a preservação de nosso patrimônio histórico, solicitou uma visita técnica a um sítio arqueológico, localizado dentro da Reserva do Morro Grande. Esse foi o primeiro trabalho de um programa que está em fase de gestação e que pretende desenvolver, em parceria com a Europan, um cadastro sistemático dos sítios arqueológicos de Cotia. Este estudo, agora denominado Cotia - 01, passa a constar do Cadastro Nacional de Sítios arqueológicos.

Em COTIA
Coordenadas Geográficas
Latitude: 23°41'17.2"S - Longitude:46°59'22.0"O

No dia 25 de março, a equipe(*) do arqueólogo Paulo Zanettini realizou uma visita técnica à Área de Proteção Ambiental (APA) do Morro Grande, por solicitação da 9ª Superintendência Regional do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e da diretora do Departamento de Turismo de Cotia, Cristina Oka.

O foco da vistoria foi a observação, levantamento topográfico e registro fotográfico da ruína, sem realizar qualquer intervenção ou coleta de material.

O sítio encontrado é constituído por um talude em forma de trapézio de 33X24m que foi recortado e recebeu contenção de blocos de rocha, formando um patamar de aproximadamente 700m2. Esta estrutura está a cerca de 30 metros de um córrego que parece ter sofrido desvio de curso ou escavação de seu leito.

"Foi cadastrada uma estrutura de pedra, indicando uma ocupação em área bastante conservada, um grande alicerce, uma edificação antiga, provavelmente reocupada no século XX. Há telhas e tijolos íntegros e aí começa-se o desenrolar desse novelo. Essa estrutura não está isolada. Sabe-se que, quando o governo demarcou a Reserva no início do século, ele retirou as pessoas que moravam dentro dela e algumas dessas famílias possivelmente viviam lá há mais de 100 ou 200 anos. Sem dúvida, pela indicação que se tem, devemos estar para tropeçar numa grande sede de fazenda sertanista, uma grande casa de bandeirante deverá aparecer. A gente não se aproximou da área mas há um imenso jaboticabal, o que demonstra que aquilo foi uma fazenda de porte".

Uma das faces da estrutura apresenta certo refinamento na construção e sugere que, em algum momento da ocupação, o sítio contou com uma área coberta, que utilizou-se do arrimo como proteção.

A superfície do talude apresenta restos de construção como fragmentos de telhas goivas e uma concentração de tijolos maciços. A visibilidade é baixa devido ao estado de regeneração da mata na APA.

O conjunto de evidências aponta para a ocupação do local no início de século XX. Para se obter um quadro mais completo sobre a época da construção e a função desempenhada no passado, seria necessária uma intervenção em sua sub-superfície. Pesquisas realizadas com antigos moradores apontam para a existência de outros vestígios e estruturas dentro da APA, certamente mais antigos, como uma "sede de fazenda em taipa de pilão" e um provável "cemitério".

A localização deste sitio e estes vestígios indicados pelos moradores já demonstram um grande potencial para o desenvolvimento de pesquisas dentro da área protegida.

para tropeçar numa grande sede de fazenda sertanista, uma grande casa de bandeirante deverá aparecer. A gente não se aproximou da área mas há um imenso jaboticabal, o que demonstra que aquilo foi uma fazenda de porte".

Uma das faces da estrutura apresenta certo refinamento na construção e sugere que, em algum momento da ocupação, o sítio contou com uma área coberta, que utilizou-se do arrimo como proteção.

A superfície do talude apresenta restos de construção como fragmentos de telhas goivas e uma concentração de tijolos maciços. A visibilidade é baixa devido ao estado de regeneração da mata na APA.

O conjunto de evidências aponta para a ocupação do local no início de século XX. Para se obter um quadro mais completo sobre a época da construção e a função desempenhada no passado, seria necessária uma intervenção em sua sub-superfície. Pesquisas realizadas com antigos moradores apontam para a existência de outros vestígios e estruturas dentro da APA, certamente mais antigos, como uma "sede de fazenda em taipa de pilão" e um provável "cemitério".

A localização deste sitio e estes vestígios indicados pelos moradores já demonstram um grande potencial para o desenvolvimento de pesquisas dentro da área protegida.

(*)Equipe envolvida: Paulo Zanettini (arqueólogo responsável), Luiz Fernando Erig Lima (arqueólogo), Paulo José de Lima (técnico em arqueologia), Marcos Elias Rabello (especialista em turismo ecológico), Jesus Santana da Rocha Jr. (Faculdades Europan) e José Quintino da Silva Jr. (apoio de gabinete).

Claudia Ribeiro

newsletteranuncie

Receba nosso informativo semanal