Manoel Góis Serrano

Porto de Santos, 1952. Após 14 dias atravessando o Atlântico, o navio Salta,de bandeira argentina, aporta, trazendo a bordo centenas de imigrantes, a grande maioria portugueses. Eles carregam na bagagem pouco ou nada, mas a esperança de uma vida nova. Entre eles, está o casal Manoel e Conceição Góes Serrano, ambos de 25 anos, e a filha Lurdes, de apenas quatro. Para trás, ficou a pequena aldeia situada a 13 quilômetros de Coimbra e um país sob a ditadura de Antônio Oliveira Salazar.

Granja Viana, 2002. Sentado na sala de estar da casa da filha mais nova, Manoel Serrano, "seu Manoel" como ficou conhecido, fala do passado. São histórias alegres e tristes, de pobreza, luta, perseverança, e, principalmente, de muito trabalho. Mas, em nenhum momento se lamenta. Aos 69 anos, mais de 40 deles vividos no Brasil, mais precisamente na Granja Viana, ele ainda mantém o espírito jovem, o riso largo. Enquanto fala, ri muito, emociona-se e, em alguns momentos, chora.

A vinda para o Brasil foi retardada por seis anos. "Meus pais e os da Conceição já moravam aqui. Não pudemos vir com eles porque eu não pude sair de Portugal sem antes servir o exército", conta. Sua vida no Brasil teve início no Jardim da Glória, onde os pais e irmãos eram chacareiros. "Fiz uma sociedade na chácara. Primeiro, eu, a Conceição e a Lurdes dormíamos na casa dos corretores, depois construí um barraco de madeira para morar".

A vontade de ter seu próprio negócio fez com que, em 1958, comprasse "fiado", como gosta de dizer, sua própria chácara, na Rua das Granjas. "Dei a entrada com um dinheiro que pedi emprestado, e o restante pagaria em 10 anos. Construí uma casa com chão de terra e paredes de tábua," conta, rindo.

Foi na Rua das Granjas que o casal passou por um grande baque. A segunda filha, Saudade, morreu repentinamente, aos 21 meses, após complicações de uma gripe e bronquite. "Morávamos num barraco de madeira que tinha muita friagem", justifica. Mas como diz o ditado, "Deus fecha uma porta e abre duas janelas", três meses depois após o falecimento da filha, nascia Dozinda, a Du.

Na chácara, a família produzia verduras que eram vendidas em Pinheiros. Havia dias em que nem dormiam. Durante o dia, colhiam.

À noite, ele e a mulher faziam os maços de brócolis, enquanto Lurdes, então com seis anos, limpava cebolinha. No início da madrugada, o caminhão chegava para ser carregado. Em seguida, iam para o mercado de Pinheiros, onde vendiam a produção para feirantes, quitandas e até mesmo para as pessoas na rua. Quando voltavam, já era hora novamente de cuidar da plantação.

Durante 10 anos, essa foi a rotina da família. Até que seu Manoel juntou umas economias, e, em 1968, comprou um terreno que pertencia a João Ishiguro, na rua José Felix de Oliveira. Pouco tempo depois, com a venda da chácara, comprou mais um pedaço do irmão, Adriano. "O terreno era só água. Um brejo. Só tinha um cantinho com terra firme. Abria valetas, comprava terra do Afonso, irmão do Pepe, e carregava no carrinho para o terreno. Aterrei tudo e comecei a plantar". No local onde hoje é a lanchonete, construiu uma casa, desta vez de alvenaria. Ao lado, começou a construção de um pequeno armazém ao qual deu o nome de Nossa Senhora Aparecida. Ele ainda lembra do primeiro freguês, Manuel Pernambuco, tio do Leitão, funcionário do Serrano. "No dia 24 de março, eu e Conceição estávamos ajeitando as coisas para abrir no dia seguinte, dia dos meus anos, quando ele apareceu. Vendemos nossa primeira feira. Meu primeiro açougueiro foi o Zé, que hoje tem uma banca de jornal em Cotia". Para fazer as compras em São Paulo, seu Manoel comprou, com dinheiro emprestado, seu primeiro carro, uma Rural 0 km, que foi roubada no primeiro assalto, em 1969.

Em 1972, 20 anos depois da família chegar ao Brasil, foi inaugurado o Supermercado Serrano. Com apenas 180m2 e três caixas, era o único supermercado da região. "Quando abri, o pessoal dizia - Ih, coitado, este vai afundar!". As previsões estavam erradas. Em 1974, ampliou as instalações. "Também construí o prédio "fiado" e com dinheiro emprestado de amigos. Ao fim de dois anos, tinha a dívida toda paga e o dinheiro para construir mais 350 metros, com área de venda e frigoríficos. Tive uma vida muito dura, sempre pagando dívidas de financia-mento e empréstimos. Tudo que comprava era fiado, sempre. Além disso, fui 13 vezes assaltado. Quando comprei uma televisão branco e preto os ladrões levaram".

O Supermercado abastecia os poucos moradores, em geral caseiros das chácaras. Às sextas-feiras, lá ia seu Manoel para São Paulo fazer compras mais sofisticadas para atender os patrões que vinham passar os finais de semana. "As pessoas compravam carne para levar para São Paulo, porque era de primeira e mais barata. Quando faltava, eu saia à noite para comprar onde tivesse. Conheço todas essas pirambeiras por aí".

A história da família Serrano é um pouco da história da própria Granja Viana. Ele conta que comprou do seu bolso os tubos para colocar na José Félix. Com as mãos na enxada, fez a drenagem da rua e ajudou no muque a levantar a coluna do sino da Paróquia Santo Antônio, onde, anos depois, as duas filhas viriam a se casar. Lembra dos papos com Niso Vianna, João Ribas, Dr. Fleury e do tempo que para ligar para São Paulo durava um dia e precisava pedir para a telefonista. Recorda-se do nascimento do Jornal d'aqui, de quem foi um dos primeiros anunciantes. Foi também ele que socorreu muita gente na sua Rural. "Levei muitas mulheres para ter nenê em São Paulo. Algumas dessas crianças ainda moram aqui. Era uma vida boa, sossegada. Todo mundo se conhecia, todos se ajudavam. Mas passou esta fase. Hoje é só encrenca...", diz.

Para ele, a vida resumia-se em trabalhar. De chinelos, calça e mangas arregaçadas, começava cedo e só terminava tarde da noite, de segunda a segunda. Ao seu lado, dona Conceição, a companheira de todas as horas. Passear? Viajar? Nem pensar. Só voltou a Portugal 20 anos depois, quando a filha Lurdes casou e ficou, com o marido, tomando conta do supermercado.

Em 1979, cansado, vendeu o Serrano. Há 11 anos, dona Conceição, que sofria de problemas cardíacos, faleceu: "Corri tantas vezes com ela para a Beneficência Portuguesa e daquela vez não deu. Ela morreu nos meus braços, em casa". A partir daí, passou a ir e voltar de Portugal. Passava três meses aqui, três meses lá, até que, há sete anos, voltou definitivamente para a terrinha. Hoje, tem uma quinta onde tem criação e produz para o consumo da família. Há cinco anos, tem uma nova companheira, diga-se de passagem, 38 anos mais nova, uma brasileira que conheceu aqui na Granja, e um filho de 4 anos, Alexandre. "É muito bom, na minha idade, ter um filho pequeno, mas, ao mesmo tempo, já não posso jogar bola porque caí e fiquei com um problema na coluna".

Uma vez por ano, sempre em abril, seu Manoel vem para o Brasil para os aniversários da família. "Não venho mais vezes porque se gasta muito. Quando estou lá, tenho saudades daqui. Quando estou aqui, sinto saudades de lá", diz, emocionando-se. "Gosto muito da minha família," fala, referindo-se às filhas, aos quatro netos, aos irmãos e à mãe que, hoje, aos 89 anos, ainda mora no Jardim da Glória. "Ganhei dinheiro no Brasil, mas sofri muito. Perdi muito dinheiro com cheques sem fundos, vendas fiadas e dinheiro que emprestei e não pagaram". Mas faz questão de frisar: "Tenho mais anos de Brasil do que de Portugal".

E quando está aqui, seu Manoel gosta de dar suas passadinhas pelo Supermercado, que ainda leva o seu nome. Lá, encontra velhos e novos amigos. Novos, sim, porque qualquer um que o conheça, em poucos minutos, se rende ao seu sorriso largo, sua simpatia, e à experiência de quem foi obrigado a deixar seu país para adotar e ajudar a construir o Brasil, como fizeram milhares de imigrantes.

Valeu, seu Manoel! Quando o senhor estiver lendo esta matéria, aí, na sua quinta, em Portugal, saiba que já estamos com saudades. Até abril do ano que vem...

Angela Miranda para Jornal D'aqui

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