Foco na educação de zero a seis anos 

Recentemente o americano James Heckman, 73 anos, Prêmio Nobel em Economia no ano 2000, esteve no Brasil falando sobre educação de zero a seis anos, tema que vem pesquisando há alguns anos, em um encontro de educação organizado pelas revistas Veja e Exame e apoiado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, pela United Way Brasil e pela Fundación Femsa. Heck¬man criou métodos científicos para avaliar a eficácia de programas sociais e vem se dedicando aos estudos sobre a primeira infância — para ele, um divisor de águas na educação.

Por que investir em crianças de zero a 6 anos? Por que os estímulos nos primeiros anos de vida são tão decisivos para o sucesso na idade adulta? Segundo ele, essa é uma fase em que o cérebro se desenvolve em velocidade frenética e tem um enorme poder de absorção, como uma esponja maleável.

As primeiras impressões e experiências na vida preparam o terreno sobre o qual o conhecimento e as emoções vão se desenvolver mais tarde. “Se essa base for frágil, as chances de sucesso cairão; se ela for sólida, vão disparar na mesma proporção, diz. “Por isso, defendo estímulos desde muito cedo”, explica.

Quão cedo? Pode parecer exagero, mas o pesquisador garante que a ciência já reuniu evidências para sustentar que essa conta começa no negativo, ou seja, com o bebê ainda na barriga. A probabilidade de ele vir a ter uma vida saudável se multiplica quando a mãe é disciplinada no período pré-natal.

Até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e isso será valioso para toda a vida. Infelizmente, é uma fase que costuma ser negligenciada — famílias pobres não recebem orientação básica sobre como enfrentar o desafio de criar um bebê, faltam boas creches e pré-escolas e, sobretudo, o empurrão certo na hora certa.

Qual é o preço dessa negligência? “Altíssimo”, garante Heckman. “Países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio e níveis menores de produtividade no mercado de trabalho”, revela. “Como economista, faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer — melhor, mais eficiente e seguro do que apostar no mercado de ações americano.”

Se isso é tão claro, por que a primeira infância não está na ordem do dia de quem tem a caneta na mão para decidir? Há ainda uma substancial ignorância sobre o tema. Algumas décadas atrás, a própria ciência patinava no assunto. A ideia que predominava, e até hoje pesa, é que a família deve se encarregar sozinha dos primeiros anos de vida dos filhos. A ênfase das políticas públicas é na fase que vem depois, no ensino fundamental. E assim se perde a chance de preparar a criança para essa nova etapa, justamente quando seu cérebro é mais moldável à novidade.

A classe política também evita olhar para a primeira infância por achar que esse é um investimento menos visível a curto prazo? “Os políticos podem, sim, considerar isso, mas estão redondamente enganados”, diz o economista. Segundo ele, crianças pequenas respondem rápido aos estímulos de qualidade. “Para quem tem o poder de decidir, deixo aqui a provocação: não investir com inteligência nesses primeiros anos de vida é uma decisão bem pouco inteligente do ponto de vista do orçamento público. Basta usar a matemática”, diz.

O que mostra a matemática? Vamos pegar o exemplo da segurança pública. Há ao menos dois caminhos para mantê-la em bom patamar. Um deles é contratar policiais, que devem zelar pelo cumprimento da lei. O outro é investir bem cedo nas crianças, para que adquiram habilidades, como um bom poder de julgamento e autocontrole, que as ajudarão a integrar-se à sociedade longe da violência.

Pois a opção pela primeira infância custa até um décimo do preço. Recaímos na velha questão: prevenir ou remediar? Como se vê, é muito melhor prevenir.

O pesquisador ainda afirma que nas políticas públicas de educação, o grande impacto positivo vem de programas que conseguem envolver famílias pobres, creches e pré-¬escolas, centros de saúde e outros órgãos que, integrados, canalizam incentivos à criança — não só materiais, evidentemente. “O programa americano Perry, da década de 60, é um exemplo clássico de que o investimento em uma boa pré-escola produz ótimos resultados”, conta. “Ele envolve ativamente os alunos em projetos de sala de aula, lapidando habilidades sociais e cognitivas, sob a liderança de professores altamente qualificados”, explica. “A família mantém um estreito elo com a escola. Temos de ter sempre certeza de que a família está a bordo, qualquer que seja a iniciativa.”

Segundo o especialista, um bom programa de primeira infância consegue ajudar a família inteira, fazendo chegar até ela informações, boas práticas e valores essenciais, como a importância do estudo para a superação da pobreza.
Heckman ainda ressalta que o Brasil deveria prestar mais atenção na qualidade dos professores: “países como a Finlândia souberam valorizar a carreira docente — não apenas no salário, que fique claro — e colheram grandes resultados na educação desde cedo”.

Ler para a criança desde cedo está no rol dos grandes incentivos de efeito comprovado pela ciência. Estimula ao mesmo tempo o gosto pela leitura, a capacidade de comunicação e a curiosidade para adquirir conhecimento. “Se nada der errado, isso se desdobrará por toda a vida”, afirma Heckman.

Fonte: MS Notícias



26/10/2017


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