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28/11/2012

Notícia - Boldrin,

"O causo é diferente da piada", explica, com o característico sotaque caipira.


"O causo é diferente da piada", explica, com o característico sotaque caipira. "Causo é uma história de um fato acontecido, um incidente, cujo desfecho é engraçado. Na minha terra, se diz que o contador de causo é um caboclo gozador."

No recém-lançado História de Contar o Brasil - Um Carroção de Causos de Rolando Boldrin (Nova Alexandria, 188 páginas, R$ 42), há dezenas dessas pequenas e engraçadas narrativas. Muitas gozam - para usar a expressão do próprio Boldrin - de gente como ele: os que vêm do interior para enfrentar a cidade grande.

Boldrin nasceu em outubro de 1936, na pequena São Joaquim da Barra, interior paulista, sétimo filho de um mecânico e de uma dona de casa. Foi criado com 11 irmãos. Na adolescência, formou dupla caipira com um dos irmãos, Leili. Eram Boy e Formiga. "Ou Forrrrrrrmiga, como se diz no interior", explica ele, que era o Boy.

"Nunca estudei nada. Fiz só até o 3.º ano do primário." Aos 16 anos, cismou de mudar para São Paulo. "Era aquela aventura de garoto. Eu e mais dois amigos viemos de trem. Só tinha o dinheiro da passagem. Dormi as primeiras noites na rua, aos pés de uma estátua do Ramos de Azevedo que ficava na Avenida Tiradentes. Imagina a loucura: um capiau que nem eu em São Paulo. Minha cidade não tinha semáforo, poluição, não tinha nada disso."

O primeiro emprego que arrumou foi de sapateiro, em uma pequena fábrica em Santana, zona norte. "Ou melhor: oficial de calçados" apressa-se em corrigir. Na cidade grande, ainda não tinha pretensões artísticas. Foi frentista, garçom, carregador e ajudante de farmácia. "Ficava uns tempos em São Paulo, voltava para o interior, vinha de novo. Comecei a acostumar, a gostar mesmo de São Paulo."

Já tinha 20 anos quando começou a fazer testes em rádios para trabalhar como radioator. Foi parar na TV Tupi. "Fazia figuração. Com e sem fala. Preferia com fala, porque pagavam o dobro. Arrumei um quartinho no Sumaré, pertinho da emissora. E ficava lá o dia inteiro", diz. "Foi um aprendizado. Fiz grandes amigos." Cita como parceiros dessa fase o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) e o novelista Walter Negrão. "No almoço, a gente chegava a dividir um ovo, por falta de dinheiro. Tanto que, quando assinei meu primeiro contrato na Tupi, engordei 10 quilos em uma semana."

Mas ele também havia tido uma grande experiência como ator de teleteatros da Tupi, entre o fim da década de 1950 e o começo da de 1960, ao lado de nomes como Lima Duarte, Laura Cardoso, Dionísio Azevedo e outros. O livro A TV antes do VT mostra várias passagens do ator na emissora, com fotos de gravações de programas da Tupi antes do videoteipe, em 1959 e 1960.

A carreira começou a deslanchar. Entre 1960 e 1980, participou de novelas da Tupi, Record e Bandeirantes. Em 1974, gravou seu primeiro disco solo, O Cantadô. "Foi uma fase de boemia. Morava em Pinheiros, adorava beber, bater papo, chegar tarde em casa", diz.

Nos anos 1980, começou seu grande projeto de vida: divulgar ritmos brasileiros. Em 1981, estreou na Globo Som Brasil. O formato era parecido ao atual Sr. Brasil. Entre shows de grupos de música regional, roubava a cena com seus causos.

Vinte anos atrás, decidiu "acalmar a vida". "Diminuí 90% a bebida - hoje só tomo de vez em quando um bom vinho e uma cachacinha. E mudei para a Granja Viana (em Cotia) para ter mais sossego."

Vive com a segunda mulher, Patrícia Maia, cenógrafa e produtora do Sr. Brasil desde a estreia, há 7 anos. "Ele é tímido com desconhecidos. Mas, entre amigos e família, junta rapidinho uma roda, porque sempre conta causos." Do primeiro casamento, com a cantora Lurdinha Pereira, tem dois filhos: Vera, de 55 anos, e Marcus, de 38.

Homenagem. Em 2010, foi homenageado pela escola Pérola Negra com o enredo Vamos Tirar o Brasil da Gaveta, exaltando seu papel no resgate das culturas regionais. "Essa é a vida dele. Ele passa a maior parte do tempo ouvindo discos de todo canto do País", conta Patrícia. "Meu hobby é meu trabalho", confirma Boldrin. "O Brasil do interior tem um imperador que se chama Rolando Boldrin", definiu, certa vez, o humorista Chico Anysio.

Fonte: Edison Veiga - O Estado de S.Paulo








 

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