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Helooos

20/10/2005

Capítulo XX - O jogo mais difícil


Não tenho dúvida. Em toda a minha experiência com o tênis, o jogo mais duro de vencer aconteceu fora das quadras.
Carla Foschini foi aluna minha desde os sete anos. Pelo sobrenome Foschini e pelo seu jeito meio fortinho, logo vieram as brincadeiras e ela ganhou o apelido de Fusquinha. É praticamente vizinha da academia, começou a treinar na escolinha, passou a jogar bem e aos 10 anos já estava entre as primeiras do ranking paulista.
Apesar da facilidade dentro da quadra, a Fusquinha nunca teve grandes aspirações de competição. Ela pinta muito bem e o tênis sempre foi simplesmente um esporte, uma diversão para ela.
Por muito tempo, ela treinou uma média de três vezes por semana. Aos 15 anos, durante duas semanas, ela não conseguia terminar os treinamentos.
Apresentava sintomas de quem estava com uma gripe – meio cansada, fraca, com tontura e dores de garganta. Para quem está com gripe, esse é exatamente o quadro. Depois de algumas horas de treino, o cansaço bate e o treino até acaba antes do horário normal. Ela tinha 1,70m, não bebia, não fumava, não usava drogas e tinha uma vida amplamente saudável.
Numa sexta-feira à tarde, ela entrou no meu escritório, disse que estava muito desgastada e que iria parar porque não estava se sentindo bem. Disse que sentia um gânglio na garganta. Recomendei falar com seus pais e que procurasse o médico.
No dia seguinte, viajei com a Sonia para uma semana de férias no Panamá. Quando voltamos, no domingo, peguei vários recados do pai da Fusquinha. Eu não tinha intimidade com ele para receber tantos telefonemas daquela maneira. Fiquei preocupado, mas como cheguei de madrugada, deixei para ligar no dia seguinte. No outro dia, logo cedo, a recepcionista da academia
disse-me que o pai da Fusquinha estava desesperado atrás de mim para ajudálos. Havia sido diagnosticado câncer e que a garota estava internada.
Imediatamente, fui para o Hospital do Câncer, na Vergueiro. Encontrei o pai dela numa fila e conversamos longamente. Ele me explicou que estava no início da enfermidade, não tinha todos os resultados de exames. Ele me pediu o favor de conversar com ela.
Fui até o quarto...
Veio à minha cabeça como eram diferentes os caminhos... Viver toda a emoção de entrar com o Fernando Meligeni numa das quadras secundárias de Roland Garros, lotada, pelas oitavas-de-final, e passar uma incrível ansiedade de caminhar por um corredor de hospital infantil e encontrar crianças carequinhas, cheias de esperança por dias melhores. A Fusquinha sempre teve muita admiração por mim, por esbanjar, sempre, muito otimismo, positivismo. Entrei no quarto, encontrei a Fusquinha deitada ao lado de uma criança de três anos, já em tratamento intensivo com a mãe ao lado. Pensei o que poderia fazer, falar, estimular alguém naquela condição.
Naquela fração de segundo, a primeira coisa para confortá-la, sentado ao lado dela, foi dizer-lhe algumas palavras que o tênis me ensinou:
– Fusca, o que está acontecendo agora contigo precisa ser encarado como um jogo duríssimo de tênis, o mais difícil de toda a sua vida. Vou avisar desde já: é uma partida de cinco sets, sem tie-break, você vai estar na frente em alguns momentos e perdendo em vários outros. Haverá uma hora que estará 2 sets a 1 para o nosso adversário, você terá perdido o saque, mas você ainda terá capacidade de virar o placar. Essas são as condições. Você vai virar esse jogo, comentei.
Os olhos da Fusquinha brilharam e ela abriu um sorriso tímido:
– É a minha sobrevivência. Vamos ganhar esse jogo, respondeu.
Ficamos juntos por mais alguns instantes e fui para casa, refletindo sobre tudo aquilo.
Dias depois começaram a chegar os diagnósticos, o quadro era bastante delicado. Mas as possibilidades de reversão eram reais, em função do avanço tecnológico da medicina, e, principalmente, pelo fato de a Fusquinha ser uma jovem, atleta, forte, com ótima estrutura familiar e ter o apoio de amigos. Tudo isso conta muito num momento difícil como esse.
Dentro das minhas pequenas limitações, procurei dar meu suporte e acompanhei todo o processo. Depois de alguns meses, ela deixou o hospital, voltou a receber o carinho de familiares e amigos em sua própria casa, evoluiu clinicamente e se recuperou.
Mesmo assim, aquele prognóstico se confirmou: ela alternava momentos, com fases de depressão total, reações colaterais e ao tratamento quimioterápico.
Um dos momentos de felicidade, nessa fase triste, foi ver a Fusquinha sentada ao lado da quadra, acompanhando o lançamento do projeto Tênis Para Todos. Esse foi um programa realizado nas quadras do Parque Villa Lobos, com o subsídio da Secretaria de Esporte e Turismo do Estado de São Paulo e com recursos da Caixa Econômica Estadual. Foram 300 crianças carentes beneficiadas até a transição de governo, que encerrou o projeto. A Fusquinha pôde rever amigos e reencontrar seu ambiente de diversão depois de muito tempo.
Talvez isso tenha servido como uma ótima terapia para ela, num momento em que ela se dedicava ao tratamento para combater o câncer.
Certo domingo, à tarde, em casa, recebo o telefonema desesperado do pai da garota. A situação havia piorado muito e ele estava com medo de que ela entregasse os pontos. Corri para a casa deles, onde estavam duas freiras que eram diretoras do colégio dela e a Fusquinha toda abatida e deprimida. O clima estava pesado e a Fusquinha precisava de uma injeção de ânimo. Senti que estava 4/1 no quinto set para o adversário e alguém precisava entrar na quadra. Fui até meio mal-educado naquele momento, pedi para conversar a sós com ela.
Saímos de uma cozinha onde estavam a família e as freiras e fomos para o seu quarto. Usando a minha experiência com jogadores, procurei encaminhar mais uma vez a situação como um jogo importantíssimo. Dentro do meu estilo, de um cara que não admite derrota, disse que queria que ela ganhasse aquele jogo.
Foi nessa base, dando porrada na cama dela, que conversamos:
– Você não vai perder esse jogo, meu. Não quero saber se você está vomitando, se você não tem fome, se você está inchada, se você está feia, com espinhas no rosto... Quero você saindo por cima dessa situação, desabafei.
Foi duro... Mas a Fusquinha venceu aquele jogo.
Ela superou a enfermidade, voltou a jogar tênis, estudou numa escola de artes, tem uma vida normal. Em 2003, a Fusquinha disputou um torneio que eu realizo anualmente para quem mora, trabalha ou estuda na Granja Viana. A festa de encerramento foi Celeiro da Granja, um dos principais restaurantes da comunidade, com troféus para campeões e vices, sorteio de brindes, presença de autoridades, jogadores e familiares.
Durante a solenidade de entrega de troféus, eu fiz uma menção especial para a Fusquinha, que estava no local. “Para mim, a maior vencedora de toda essa competição é a pessoa que vou chamar agora. Eu, ela, sua família e alguns dos seus amigos que estão aqui, sabem o motivo pelo qual ela é, na verdade, a grande campeã desse torneio”. Foi emocionante.
O tênis me ensinou muita coisa por toda a minha vida. Pude aplicar meu conhecimento e minha experiência em várias situações, inclusive em uma ocasião totalmente inesperada. Estou pouco me importando se tenho um jogador que vai ser 20 do mundo.
O caso da Fusquinha é o exemplo mais nobre de que o tênis é muito mais do que um jogo.
É a maior vitória no jogo da vida real.

Carla Foschini

Meus pais sempre quiseram que eu praticasse esporte. Aos seis anos, eles me colocaram no tênis, mas fiz apenas duas aulas e parei. Dois anos mais tarde, incentivada pelos irmãos Caetano e Carol, voltei às quadras na Meyer Tennis. Tive um bom recomeço, ganhei vários torneios organizados pela Federação Paulista, subi no ranking e me acostumei com as vitórias. Aos 10 anos, já não sabia conviver com derrotas.
Quando tinha 12 anos, minha família passou por problemas financeiros. Ficou decidido que, diante da situação, as aulas de tênis, consideradas um luxo, um supérfluo, seriam interrompidas.
O Marcelo Meyer tem um jeitão de uma pessoa brava.

Na verdade, ele realmente impõe bastante respeito, mas é dono de um coração mole. Quando soube que eu iria parar de treinar, ele fez questão de manter as portas da academia abertas pra mim, disse que eu poderia continuar normalmente os treinamentos, mesmo sem pagar as mensalidades.
Foi uma atitude bem solidária por parte do Meyer. Demonstrou sensibilidade num momento difícil pra mim. Em casa, estávamos adequando nosso dia-a-dia à nova realidade, após a falência da empresa de meu pai. Precisei, por exemplo, sair de um colégio particular para estudar em escola pública. Era bem difícil conviver com essa nova realidade.
Eu tinha 15 anos nessa fase. Estava meio revoltada com a vida em virtude de uma combinação de acontecimentos negativos, como o delicado financeiro em casa, a mudança de alguns hábitos e os resultados ruins no tênis. Sem perceber, estava abandonando o ambiente saudável da academia de tênis para conhecer lugares nada recomendáveis e encontrar amizades não muito boas.
Certo dia, em conversa com uma amiga, evangélica, da escola, provoquei-a e desafiei a Deus. Insisti em dizer que Ele não existia e que se eu estivesse enganada gostaria de ter uma prova: queria que Ele me deixasse doente. Não demorou muito. Uma semana depois, comecei a sentir dores no pescoço. Olhei para o espelho e descobri dois nódulos. Fiz os exames e o resultado acusou que eu tinha câncer.
Foi um choque enorme. Eu não sabia dimensionar o tamanho daquele novo – e gravíssimo – problema. Naquele momento, várias coisas passaram pela minha cabeça e a principal era que eu não teria muito tempo de vida.
Eu precisava ser internada com urgência e aí veio mais sofrimento para mim e toda minha família. Estávamos sem condições financeiras de arcar com uma despesa daquele tamanho.
Posso afirmar que naquele momento surgiram os meus dois anjos da guarda: o Marcelo Meyer e a doutora Célia, do Hospital do Câncer. Outra pessoa bem especial foi o artista plástico Walter Berner que veio várias vezes de Petrópolis (RJ) para São Paulo, para me dar muita força, com palavras bem bonitas. Todos eles me ajudaram muito em todo esse duro processo.
Fui internada no mesmo dia em que uma garota de nove
anos, a Janaína. Apesar de bem novinha, ela já era uma “veterana” no combate ao câncer. Com incrível facilidade, falava de como era o tratamento, sobre medicamentos, vivia sorrindo e brincando. Fiquei num quarto que tinha também a Ana Carolina, de dois anos.
Bateu uma grande felicidade quando o Meyer apareceu naquele quarto, logo nos primeiros dias de internação. Ele é uma pessoa que eu respeito bastante, que eu gosto como se fosse meu pai, porque sei que não é hipócrita comigo. Ele me disse que eu teria “cinco sets longos para disputar”. Fez uma metáfora bonita: usou as palavras do dia-a-dia dos treinamentos de tênis em sua academia para eu vencer aquela dura guerra contra a doença.
Eu me lembro como se fosse ontem... Acreditei e, de fato, utilizei muito do que ele falou como arma para vencer o câncer.
Realmente, foram “cinco sets longos”, como ele disse... Foram seis meses de tratamento e sofrimento. Naquele “jogo”, foram bem poucos os momentos em que eu estive ganhando. Cheguei a ponto de quase abandonar tudo, quando tentei, em determinada ocasião, fugir do Hospital. Teve momento em que estava “5/1 e saque para o adversário no quinto set”.
Mas eu não me entreguei... Via todo aquele meu sacrifício, o desespero e empenho de meus familiares, a dedicação de amigos...
Não podia deixar tudo aquilo em vão. Reagi e consegui vencer aquele “jogo”. Ainda faço visitas ao Hospital para exames de rotina, mas estou completamente curada!
Essa experiência foi incrível e hoje tenho medo de esquecer tudo o que aprendi.
Aparentemente saudável, eu não vinha aproveitando bem a minha vida, estava trocando o tênis por companhias duvidosas e lugares ruins, vivia deprimida e cheia de dúvidas até descobrir a doença. Do mesmo jeito que Deus me enviou o aviso ruim, o câncer, Ele me mandou também a mensagem positiva de que eu precisaria ter um caminho diferente. Hoje, tenho outros tipos de problemas, como qualquer pessoa. Mas sei encarar as dificuldades sem me desesperar. Com a doença, aprendi a valorizar muito mais a vida. Antes, eu não tinha a noção de seu real valor.
O Meyer tinha razão... Foi como um difícil jogo de tênis.
Eu tive pela frente um adversário quase imbatível, mas com a energia positiva dos meus “técnicos”, dos meus familiares, da platéia e com a minha força de vontade, consegui vencer. Se estivesse jogando sozinha, talvez não tivesse passado do segundo set. A conquista foi coletiva.


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